Saúde e condiçoes de vida do idoso no brasil

9 Mai

Maria Inez Padula Anderson *

O Brasil possui atualmente cerca de 13 milhões de idosos, que correspondem a 8,3% do total da população. Apesar disso, ainda é escasso o conhecimento sobre suas características e das demandas de saúde decorrentes do seu perfil epidemiológico. Este artigo apresenta um perfil do idoso brasileiro, com enfoque nas suas condições de vida e de saúde, destacando sua condição de moradia, nível de renda, trabalho e escolaridade, dados relativos ao índice de massa corporal, à morbidade referida e ao padrão de utilização dos serviços de saúde.

As informações contidas neste artigo são oriundas de dissertação de mestrado1, cuja fonte de informações foi um banco de dados – coletados em inquérito nacional de base domiciliar (Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição), realizado em 1989 – no qual foram entrevistados 63.213 indivíduos, dos quais 4.650 eram idosos de todas as regiões do país.

Considerando o aumento da população idosa no mundo, em especial a dos países em desenvolvimento, a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1989) e outros estudiosos do tema (Kalache, 1993; Malcom, 1993; Kinsella, 1993) recomendam o desenvolvimento de estudos e pesquisas que subsidiem a tomada de decisão e dirijam as ações e prioridades no nível das políticas públicas relativas à terceira idade. Dentre estas recomendações, pode-se ressaltar a necessidade de se realizar análises multidimensionais visando o estabelecimento de um diagnóstico e de indicadores básicos acerca da população idosa, tais como: a) idade, sexo, nível educacional e condições socioeconômicas; b) a descrição dos problemas e necessidades que afetam a população-alvo, com especial ênfase naqueles que influenciam o estado de saúde e o bem-estar geral; c) a busca de dados de morbidade/incapacidade.

Considerações gerais sobre a população idosa e sua distribuição no Brasil

A população brasileira estimada para 1989 pela Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição com base no censo de 1980 foi de 144.353.345 de indivíduos (exclusive o Norte rural). Deste total, cerca de 7,7% seriam de pessoas com 60 anos ou mais, perfazendo 11.107.497 a população considerada da “terceira idade”. Destes indivíduos, a maior proporção estava concentrada na faixa de 60 a 69 anos – 59%; as outras duas faixas, de 70 a 79, e a dos 80 anos ou mais representavam 30% e 11%, respectivamente. As mulheres predominavam em todas as faixas etárias, em especial na de 80 anos ou mais, na qual o segmento feminino correspondia a 60% do total. Entretanto, quando eram consideradas separadamente as zonas rural e urbana, verificava-se um predomínio de homens idosos na zona rural. As regiões Sudeste, Sul e Nordeste possuíam o maior percentual de idosos. O Sudeste e o Nordeste juntos concentravam mais de 70% do total da população de idosos brasileiros.

Aspectos socioeconômicos

a) Condições de moradia

Na zona rural, a análise dos itens relativos a saneamento básico, rede elétrica e existência de vaso sanitário demonstraram a total precariedade das condições de vida da grande maioria de idosos que lá moravam. Nessa região, mais de 60% dos idosos não contavam com eletricidade, 75% não tinham água canalizada, e somente 35% possuíam vaso sanitário e filtro de água. Mais de 70% dos idosos da zona rural não possuíam bens eletrodomésticos comuns, como geladeira, telefone, televisão e automóvel. O telefone, meio de comunicação de grande benefício social – sob vários aspectos – para a terceira idade, só estava presente em no máximo 1,5% dos domicílios, ressaltando-se que nenhuma residência de idosos com 80 anos ou mais possuía telefone. O esgotamento sanitário e a coleta de lixo eram pontos também críticos, uma vez que praticamente inexistia rede coletora de esgoto; a população utilizava fossas sanitárias e outros recursos. A coleta de lixo beneficiava menos de 3% dos moradores.

Na zona urbana os números revelaram um quadro mais favorável. Ainda assim, chama atenção o fato de que quase 30% daqueles com 80 anos ou mais não possuíam geladeira. Aliás, na maioria das vezes os idosos “mais idosos” – 80 anos ou mais – eram os menos beneficiados com a existência desses bens e serviços, o que pode refletir uma perda progressiva do padrão de vida que acontece – com freqüência- na terceira idade e/ou uma melhoria nas condições de vida das coortes mais recentes.

As condições de habitação, como as de facilidades domésticas, e a existência de fontes de lazer dentro de casa são aspectos importantes para uma avaliação da qualidade de vida na terceira idade. Uma moradia adequada, provida de recursos eletrodomésticos básicos e de infra-estrutura sanitária decente, ainda é o sonho de muitos idosos do Brasil de hoje e do futuro próximo.

b) Renda

A renda domiciliar per capita foi obtida indiretamente, através da divisão da renda domiciliar pelo número de habitantes do domicílio. A figura 1 apresenta a renda per capita em função da faixa etária. Como pode ser observado, quase 50% dos idosos com 80 anos ou mais tinham renda até meio salário mínimo, ao passo que na faixa etária entre 60 e 69 anos este percentual foi de cerca de 35%. Dentro deste quadro, a situação do Nordeste rural é um caso a ser destacado, uma vez que foi a região de pior distribuição de renda. Independentemente de faixa etária, mais de 80% da população idosa dessa região ganhava até meio salário mínimo, sendo irrisório o percentual daqueles que tinham renda igual ou superior a dois salários.

Do outro lado, mas ainda longe de representar níveis de renda condignos, o Sudeste urbano estava entre as regiões com melhor distribuição e menor concentração de renda, onde o percentual de indivíduos que ganhava dois ou mais salários era superior ao dos que recebiam até meio salário mínimo. Não foram constatadas diferenças marcantes entre a renda de homens e mulheres – conforme se observa usualmente – provavelmente pelo fato dessa renda representar uma média.

No Brasil, como pode ser constatado, a pobreza é uma característica da velhice. Os dados da PNSN mostraram que os idosos eram mais pobres quando comparados aos adultos de 40 a 59 anos de idade e, entre si, os idosos “mais idosos” eram mais pobres do que “os idosos mais jovens”. O tipo de estudo realizado não permite avaliar se esta tendência é uma expressão real do progressivo empobrecimento dos idosos ou se, como já comentado anteriormente, significa também uma melhoria das condições de renda das gerações posteriores. O fato é que, na maioria das vezes, há perda de rendimentos por ocasião da aposentadoria, que aliada à dificuldade de se conseguir atividade remunerada nesta fase, torna a vida do idoso uma dura realidade a ser enfrentada quotidianamente.

c) Trabalho na terceira idade

O trabalho na terceira idade é um tópico que merece ser analisado com cuidado. Se por um lado ele pode ser um indicador da capacidade de manter atividade laborativa – sem dúvida um dado positivo per se – por outro ele pode refletir a necessidade de continuar trabalhando, sabe-se lá em que condições, para manter a sobrevivência. A OMS (1984) chama a atenção para a proporção de idosos que se mantém economicamente ativa em países do Terceiro Mundo (como o Quênia – 63%), comparada à proporção daqueles que vivem em países desenvolvidos (como a França – 12%).

Os dados mostraram que uma boa parcela dos homens idosos estava realizando algum tipo de atividade remunerada (tabela 1). Evidenciaram também as diferenças – regionais e entre as zonas rural e urbana – existentes em relação a esta questão, chamando atenção para o maior percentual de idosos que trabalhava onde os níveis de renda eram mais baixos. Na zona rural, mais de 70% dos idosos de 60 a 69 anos, e mais de 16% daqueles com 80 anos ou mais continuavam trabalhando.

Na região urbana a realidade era menos árida, embora os percentuais ainda fossem significativos, especialmente na região Centro-Oeste (40% na faixa entre 70 e 79 anos). Ressalte-se que a maior parte desses idosos relacionou como sua principal atividade os trabalhos manuais, ou seja, trabalhos que requerem aptidão e esforço físico para serem realizados.
No Brasil, considerando-se o nível de pobreza da população, pode-se afirmar que o trabalho, em especial em idades mais avançadas, serve para manter a subsistência. Ressalte-se que a competitividade do mercado de trabalho diminui, cada vez mais, a chance “dos mais velhos” manterem-se economicamente ativos.
d) Escolaridade

Foram constatadas taxas elevadas de analfabetismo entre os idosos, embora decrescentes nas coortes mais recentes (tabela 2). Mais uma vez as regiões Nordeste e Sudeste representaram os extremos dessa realidade. No Nordeste, aproximadamente 65 em cada 100 idosos não sabiam ler ou escrever, enquanto que, na região Sudeste, embora ainda elevado, o percentual era de cerca de 30%. O nível de escolaridade, tendo como referência o total de séries concluídas, também foi baixo: mais de 80% dos idosos tinha cursado, no máximo, até a quarta série, o que correspondia, à época, ao primário completo. No Nordeste, de cada dez idosos, sete nunca concluíram sequer um ano de estudo.
Esse baixo nível de escolaridade deve ser considerado quando do planejamento de programas e ações, tanto no nível coletivo quanto no individual. O nível educacional interfere diretamente no desenvolvimento da consciência sanitária, na capacidade de entendimento do tratamento prescrito e na prática do autocuidado, interferindo diretamente na relação médico-paciente

e) Com quem mora o idoso

Embora a maioria da população idosa estivesse morando com duas ou mais pessoas, um percentual importante morava sozinho. A maior proporção de idosos morando sozinhos recaiu sobre as mulheres com 70 anos ou mais (15%). Para os homens a proporção era menor, ficando em torno de 6%.

Dentre as muitas questões relevantes para a terceira idade, uma delas é o fato de morar sozinho. Pelas dificuldades em relação à sua saúde, já comentadas anteriormente, o fato de morar só (em especial para a população masculina das coortes estudadas) pode trazer uma série de dificuldades adicionais, que vão desde o sentimento de solidão e de exclusão social (que freqüentemente associa-se e/ou leva à depressão), até à má alimentação, qualitativa e quantitativa, passando pelos cuidados com a saúde e com a higiene pessoal e domiciliar. Ou seja, morar só pode ser bom para o idoso, desde que exista condição econômica e física mínima para manutenção do autocuidado.

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